
História do Sana
Entre trilhas, roças e travessias, o Sana foi sendo construído por quem permaneceu.
A história do Sana é construída a partir do encontro entre pessoas, territórios e natureza. Ao longo do tempo, o local foi se formando por meio de diferentes ocupações humanas, atividades produtivas e modos de vida que deixaram marcas profundas na paisagem, na cultura local e na forma como a comunidade se relaciona com o ambiente.

O território antes do turismo
Antes de ser consolidado como destino turístico, o Sana estava inscrito na dinâmica mais ampla do Brasil, da serra fluminense e da bacia do rio Macaé, região historicamente conectada a trajetos rurais, trocas entre vilas serranas e fluxos de trabalho. A economia familiar baseada na agricultura, na criação de animais e no uso direto dos recursos naturais marcou profundamente a vida cotidiana. Esses saberes e práticas — o cultivo da terra, o manejo dos caminhos, a interpretação de rios e encostas — constituíam uma forma de relação íntima com o ambiente, que ainda hoje pode ser percebida nas formas de circular, cuidar e viver o território, que deixaram vestígios materiais e imateriais que ainda fazem parte da memória e das ancestralidades locais.
Nesse contexto, a história regional é atravessada por trajetos e comunidades rurais que ligavam Macaé à Serra. Rotas por matas e vales eram usadas por tropeiros, agricultores, migrantes e artesãos em busca de terras, pastagens ou mercados informais de trocas e trabalho. Esses caminhos, muitas vezes definidos pela geografia da água e do relevo, conectavam a costa e o vale do rio Macaé às áreas mais elevadas da serra — passando por Lumiar, São Pedro da Serra e os arredores de Nova Friburgo — influenciando diretamente a formação dos modos de vida no Sana.
A presença de comunidades quilombolas e de resistência afrodescendente na região também compõe essa história. Os registros históricos sobre o chamado Quilombo de Macaé mostram que, no início do século XIX, grupos de africanos escravizados fugidos formaram comunidades às margens dos rios da serra, produzindo alimentos, construindo modos de vida coletivos e resistindo às tentativas de expulsão e violência dos colonizadores suíços e portugueses que chegavam à região para ocupar terras e implantar fazendas. Esse episódio revela uma faceta de resistência que se inscreve na memória da região serrana e que dialoga com outras formas de luta por território e liberdade que marcaram o interior do estado do Rio de Janeiro antes e durante o período da colonização.
Outra dimensão importante da história regional foi o processo de migração europeia, especialmente suíça e alemã, que, a partir de 1818-1820, esteve ligado à criação da Colônia de Nova Friburgo e à distribuição de sesmarias no sertão serrano. Historiógrafos como Jorge Miguel Mayer analisam esses episódios não apenas como simples colonização, mas como parte de uma formação histórica complexa, na qual imigrantes e populações locais se envolveram em diferentes formas de trabalho rural, troca de saberes e adaptação cultural, contribuindo para a diversidade social que caracteriza a serra até hoje.
Esses processos — caminhos rurais, presença quilombola, migrações europeias — construíram um território em que a agricultura familiar, o extrativismo, o manejo tradicional da terra e as relações sociais estavam profundamente integrados à natureza. Essa complexidade antecede e contextualiza o surgimento do turismo.

Fonte: Pedro de Araújo Marinho, arquivo pessoal.
Transformações e turismo
A partir das últimas décadas do século XX, o território do Sana passou por mudanças significativas. A valorização de suas cachoeiras, trilhas e paisagens naturais atraiu visitantes de diferentes regiões, promovendo o turismo como uma das principais atividades econômicas do distrito. Esse movimento, por um lado, trouxe novas oportunidades de trabalho e conexão com redes mais amplas de visitação; por outro, colocou desafios relacionados à conservação ambiental, à gestão dos espaços naturais e à manutenção das identidades locais.
Compreender a história do Sana — com seus itinerários humanos, suas lutas por território, suas trocas culturais e seus modos de vida — é fundamental para pensar o turismo de forma consciente e integrada. Esse olhar histórico amplia a compreensão das potencialidades e limites do território, contribuindo para um turismo que respeita memória, natureza e comunidades vivas.
A partir da década de 1970–1980, o território começou a se transformar novamente com a chegada de jovens vinculados a movimentos contraculturais e à busca por modos de vida alternativos, em sintonia com práticas de vida mais simples, comunitárias e centradas na natureza. Influenciados pelo movimento hippie global e pelas experiências de contracultura das décadas anteriores, estes grupos encontraram no Sana — isolado em meio à serra, com trilhas, rios e paisagens preservadas — um espaço para viver, cultivar saberes ecológicos, trabalhar artesanalmente e experimentar relações sociais diferentes das grandes cidades. Esse fluxo de novos residentes, muitas vezes chamados de “novos rurais”, contribuiu para moldar o lugar de forma original, inspirando práticas coletivas, eventos comunitários e relações de troca que mais tarde dialogariam com o desenvolvimento turístico que viria a seguir.
A origem do nome Sana
A origem do nome Sana é cercada de histórias, memórias e diferentes interpretações que refletem a relação profunda entre o território e os povos que o habitaram ao longo do tempo. O nome aparece nos registros históricos da região, mas sua explicação definitiva permanece aberta, fazendo parte da construção da identidade local.
Uma das hipóteses remete à presença indígena na região. Acredita-se que povos de origem Tupi tenham habitado o território, e que o nome Sana possa estar relacionado a um tipo de bambu abundante às margens dos rios locais, assim denominado pelos indígenas.
Outra interpretação associa o nome à imigração europeia. Colonos suíços e alemães que chegaram à região no século XIX, vindos da serra de Nova Friburgo, teriam comparado o rio local ao rio Sena, na França, influenciando o surgimento do nome Sana. Essa presença estrangeira deixou marcas visíveis na paisagem, na arquitetura e nos modos de vida da região.
Há ainda uma narrativa transmitida pela memória oral. Segundo relatos locais, existiu uma família com o sobrenome Sana que viveu na região e posteriormente migrou para áreas próximas a Bom Jardim, na serra fluminense. Com o passar do tempo, esse sobrenome pode ter se transformado em Sanner, reforçando a ligação entre o nome do lugar e as famílias que ajudaram a formar sua história.
Entre rios, florestas e caminhos de migração, o nome Sana carrega múltiplas origens — indígenas, europeias e familiares — refletindo a diversidade cultural e histórica que molda o território até hoje.
